quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Paulo Santiago, o "Pai do Rugby em África"


Caricatura de: © Mário Migueis da Silva - Direitos reservados

O blog do nosso clube é essencialmente um espaço para divulgação do rugby.
Preveligiamos, como é natural, temas relacionados com o clube da Moita e de tudo o que, de uma ou de outra forma, esteja relacionado.
Por isso mesmo, não podiamos deixar de publicar neste nosso espaço, um maravilhoso texto que encontramos num blog de antigos combatentes portugueses na Guiné www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com, que virtua um nosso antigo atleta (hoje veterano e ex-presidente do clube) Paulo Santiago, personagem muito querida para todos nós, sempre disponível para o que quer que o clube necessite. É inclusíve o actual Presidente da Assembleia Geral da nossa colectividade.
Foi escrito por um colega seu de armas e presta também uma homenagem interessante ao rugby, tendo em conta a época a que se refere (anos 60).


“Ao contrário do que legitimamente pensaram, não vamos relatar a visita do Pai do Rugby a África, mas tão só, e com igual grau de legitimidade, dar a conhecer aos menos informados que o Pai do Rugby em África tem nome e é português. Chama-se Santiago - Paulo Santiago - e nasceu para os lados de Águeda, Aguada de Cima, onde ainda reside.
Frequentou a Escola Superior de Agronomia, em Coimbra, que testemunhou os seus primeiros ensaios e conversões. Mas eu, simples narrador da história, só uns anitos mais tarde o conheci, lá para os lados do Saltinho, na Guiné, onde então ondulava pavilhão português.
Estávamos em 1971, talvez meados. Tinha (ele, o alferes Santiago) chegado na véspera da metrópole, onde gozara férias – duvido que merecidas - na santa terrinha de deliciosos comes e bebes. Cruzámo-nos na parada, ele vindo do abrigo do célebre Pelotão de Nativos 53, que comandava com um orgulho maluco, e eu de um lado qualquer, de que me não lembro nem interessa ao caso.
- Que é isso, Santiago?!...
- É uma bola de rugby, que trouxe ontem da metrópole, - respondeu com um largo sorriso, exibindo-me a alva bola com cara de melão..
- De rugby?!...
- Pois… Logo à tarde vamos fazer o primeiro treino no campo de lançamento dos frescos.
Ah, granda maluco!..., pensei eu sem dizer nada, que o homem podia levar a mal.
Só no dia seguinte soube – eu, o narrador – do que se passara na clareira a norte do Saltinho, onde, à falta de colunas de reabastecimento, os Nord Atlas lançavam pára-quedas com frescos e coisas assim.
- Com pernas fracturadas foram só dois, mas há mais estropiados com cabeças rachadas e dentes partidos, entorses e luxações. Ui, meu furriel, a coxear eram mais que muitos!..., - contava-me, tim-tim por tim-tim, o Cruz das Transmissões.
É claro que os senhores comandantes dos pelotões da Companhia ficaram assaz furiosos com o extenso rol de baixas, tal como o pacato Alferes Médico da Unidade – o Dr. Faria, oriundo da cidade-berço, que Deus tenha! – com tantos trabalhos e canseiras, para além da razia verificada nos stocks de álcool, tinturas, massagins, ligaduras e adesivos.
- Isto, assim, não pode ser, meu capitão!, - queixava-se alguém ao Comandante, que, não sendo homem de atitudes precipitadas, ouvia, ouvia, e ia registando tudo mentalmente, como poderia depreender-se dos seus ligeiros e concordantes acenares de cabeça.
- Ó Santiago!, - chamou o Capitão discretamente, à porta da messe, já no final do dia, antes do jantar.
- Sim, meu Capitão?... – respondeu prontamente o nosso herói, com um sorrisinho inocente.
O Capitão Clemente, com o seu olhar verde metalizado a brilhar por sobre aquela pêra de azeviche, varreu o Santiago de cima para baixo e, em seguida, de baixo para cima, enquanto tentava encontrar as palavras adequadas para lhe transmitir a mensagem que se impunha. Finalmente, chupou profundamente a ponta já nos iscos do indispensável SG Ventil e, com aquela voz cavernosa como só a dele, sentenciou por entre uma baforada meia de alívio, meia de desalento:
- Vá-se f....!”

1 comentário:

Paulo disse...

Esta história do meu camarada e amigo Mário Migueis foi uma agradável surpresa que ele e o
blogueforanadaevaotres, resolveram
fazer-me no dia 6 de Janeiro, dia
em que fiz 62 anos.
Esta história é ficção,mas existe
alguma verdade...da 1ªvez que vim
de férias,passados nove meses de
mato,já bastante "apanhado"pelo
clima,comprei em Coimbra uma bola,
ADIDAS, o melhor que havia na altura,e transportei-a para a Guiné
Esclareço, os meus soldados eram
negros guineenses,jamais tinham
ouvido falar num desporto chamado
Rugby,a única bola que conheciam era redonda,e no futebol tinha uns
craques, agora imaginem os tipos a
olharem para uma bola que parecia
uma papaia...não havia melões na
Guiné.
Após uma palestra explicativa,houve
um treino...o Saltinho,grande azar,
seria dos poucos locais na colónia
onde existiam bastantes afloramentos de rocha, não existia
um campo pelado,existia um campo
pedrado.
Ninguém partiu nada,mas houve umas
escoriações e uns encontrões mais
ou menos violentos...o Alferes
Médico,o tal Dr.Faria,aconselhou-me
a meter a bola no saco...

Abraço aos amigos do Moita

Paulo